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Quarta-feira, 30.12.09

 

O vento veio acordar-me da letargia

e da hibernação

Toda a noite se ouviu e sentiu na casa

e na alma

 

O vento agita-nos, inquieta-nos

e coloca-nos em movimento

 

Este movimento é o plano certo

o plano certo da vida

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:55

Do Tempo das Descobertas: Do espírito da quadra

Domingo, 27.12.09

 

Do Vontade Indómita, este surpreendente texto Do Espírito da quadra. Uma perspectiva absolutamente genial que nos coloca no essencial da nossa humanidade:

 

" do espírito da quadra

 

  


 

Mesmo tendo sido educado na religião católica —que por tradição familiar e aulas de catequese (uff) me levou até à Comunhão Solene— nunca fui verdadeiramente crente do Acto e do Mito. O meu entendimento da matéria tem-se desenvolvido com os anos e poderá classificar-se como um evolutivo agnosticismo cínico. Acreditar superficialmente que o homem um dia terá a capacidade (embora no fundo pense o oposto) de resolver mistérios divinos que conscientemente acho que não existem, (não obstante sentimentalmente prefira estar enganado). É desta forma que olho para o 'Dr. Jivago' de Pasternak. Há algo de messiânico nele, coisa que com alguma força de vontade também conseguimos encontrar no burro 'Balthazar' de Bresson. Lutou contra as misérias e as dores dos outros com altruísmo e enfrentou o pior da natureza humana —aquilo que só a guerra provoca— com coragem. A fome despoletou a Revolução e esta o saque e a pilhagem. Por sua vez, tudo junto provocou o êxodo do nosso bom doutor e poeta. Mostrou-se sempre sensível e terno, para com os seus e perante os demais. A sua mensagem não é declaradamente pela Palavra, como num profeta bíblico para uma audiência atenta, nem mesmo pela Poesia para uma legião de seguidores. É antes pelo exemplo de estoicismo. Não sei, (nem me interessa), se Pasternak (nascido judeu) foi um fervoroso crente em qualquer religião. Acreditou, isso sim, nos homens. Tanto nas suas virtudes como nas suas desgraças. Jivago aparece remotamente à minha imagem subconsciente como o seu Cristo. Talvez por isto, o épico de David Lean (après Pasternak) é dos melhores filmes para o aborrecido espírito de compaixão da quadra. Pelo menos para alguém como eu. "

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:03

A nossa verdadeira natureza

Sábado, 26.12.09

 

Uma das coisas essenciais mais difíceis de adquirir é a capacidade de nos vermos como somos, a nossa verdadeira natureza. Toda a nossa história pessoal é uma sucessão de definições e características que nos colam desde muito cedo. Mesmo que todas as nossas células reclamem uma identidade própria e os neurónios dêem voltas e mais voltas para provar que não encaixamos nessa fórmula, a realidade exterior tem muita força. E acabamos por adaptar os nossos circuitos ao que nos revelam os espelhos sociais. Finalmente, acabamos por acreditar que os outros têm razão. Somos assim e assado, temos estas e estas características, são estas as nossas potencialidades.

 

Imaginem agora isto aplicado a um grupo, a uma comunidade, a um povo, a um país. Toda uma sucessão de histórias e lendas, livros e filmes, transmitidos até à exaustão para nos identificarmos com uma filosofia, uma cultura, uma forma de ver e de viver. Os grupos precisam de heróis e há sempre heróis disponíveis. Precisam de justificar a sua existência perante outros grupos. O seu valor, a sua importância, o seu poder. É uma questão de sobrevivência. Pelo menos tem sido assim até hoje. 

 

Agora olhemos para este rectângulo marítimo. Tal como o levaram até aqui. Acham que tem alguma coisa a ver com a sua verdadeira natureza de marítimo, por exemplo? Nada ou quase nada, a não ser na área turística e aí nem se respeita o lado marítimo, respeita-se o lado terrestre.

Há ainda pequenos oásis, praias ainda desertas, arribas ainda não habitadas. E outros locais citadinos onde se conciliaram as pessoas e o mar. Foi um desses locais que percorri recentemente, numa tarde subitamente amena, de sol muito claro e vento amigável no rosto.

 

Pensem um pouco nisto: havia alguma razão lógica ou plausível para um país com estas caracteristicas, um clima ameno, uma claridade única, uma costa em toda a sua extensão, configuração variada, terrenos férteis nalgumas regiões, expressão musical e poética, a começar na sua língua, a mais bela até hoje, entre tantas outras características... ser o mais pobre da Europa? Tão pobre mas tão pobre que nem se apercebe da sua própria pobreza? E tão pobre tão pobre que nem sabe o que é ser rico, verdadeiramente rico? Alguém tem de lhe mostrar.

Até aqui tentaram meter-lhe ideias de novo-riquismo na cultura, insuflar-lhe a mania da grandeza. O resultado está à vista: não há maior sinal de pobreza cultural do que o novo-riquismo. Também não se consegue empobrecer mais facilmente do que seguindo o novo-riquismo. 

 

O que é ser rico então? Verdadeiramente rico?

 

De todas as qualidades de se ser rico, a melhor para mim é a autonomia. Não o orgulhosamente sós de uma cultura fechada em si mesma, mas da confiança em si próprio que só pode surgir de se saber quem se é, de onde se vem e para onde se quer ir. A confiança em si mesmo de quem se conhece bem, as suas reais capacidades, e as utiliza para ser livre e para colaborar na sua comunidade.

É por isso que gosto muito deste texto de Francesco Alberoni. Aqui refere-se a algumas das primeiras iniciativas de cidadãos livres na Europa, os primeiros a libertar-se de dependências dos senhores feudais, e aqui podemos encontrar um paralelismo para actuais dependências, internas e externas. Aqui vai:

 

"Autonomia

Não deves contar com a ajuda dos poderosos, mas apenas com o teu trabalho, com as tuas capacidades, com aquilo que sabes fazer. Vive vendendo os teus serviços e os teus produtos no mercado. Foi este o grande ensinamento da Itália dos Comuns e, depois, do mundo protestante. Não procurar as prebendas eclesiásticas ou o favor de um príncipe. Não pedir seja o que for a ninguém. Desta forma serás um homem livre. Não pedir sequer esmola. Os Humilhados lombardos, ao contrário dos Franciscanos e Dominicanos, para poderem ajudar os pobres, trabalhavam como artesãos. É deles que irão aprender os protestantes luteranos e os calvinistas.

No mundo feudal o vassalo depende dos caprichos do senhor, o cortesão, dos humores do príncipe, o artista da corte, do mecenas. Só o artesão que trabalha na oficina com as suas próprias mãos, com a sua habilidade, não tem de agradar a um personagem colérico e caprichoso, esperar pelas suas decisões arbitrárias, respeitar os seus gostos. Cria e vende os seus produtos àqueles que o apreciam. Se o fidalgo da sua terra não os quer, vai oferecê-los a outras pessoas, noutro país.

A liberdade dos cidadãos de Florença, Veneza, Génova e, depois, de Amsterdão ou Lubeck, tinha como fundamento a sua capacidade para exportar para toda a Europa. Até ao século passado os literatos e os músicos só podiam desenvolver o seu trabalho se pertenciam a uma família rica, ou se trabalhavam na dependência de um senhor. Depois começaram a manter-se vendendo os seus livros no mercado. Foi este o verdadeiro fundamento da liberdade de palavra.

Porém, em muitos países, e também em Itália, a indústria manteve-se frequentemente agarrada ao poder político, para ter protecções, encomendas, ajudas. E o poder político concedeu-lhas em troca de dinheiro e de favores. Isto aconteceu antes do fascismo, durante o fascismo e também depois. Desta cumplicidade entre empresa e poder político nasceu a corrupção de Tangentopoli. Mas a parte mais vital do nosso sistema económico não pediu favores e privilégios, não participou em arranjos obscuros. Afirmou os seus produtos nos mercados internacionais.

Assim agiram os criadores do "made in Italy". A liberdade individual e colectiva foi mais uma vez garantida pela capacidade de fazer bem o seu próprio trabalho.  A todos os níveis: pelas empresas e pelos indivíduos.

Trabalhar, enriquecer as suas competências, é o património mais precioso do indivíduo. É o único verdadeiro fundamento da sua autonomia e da sua liberdade. Faça ele o que fizer: gerente, técnico, professor, artesão, operário ou profissional liberal. É um poder a que ninguém deveria renunciar. ... " (Alberoni, Francesco - Tenham Coragem. Bertrand Editora, 5ª edição, págs. 56-58)

 

Aqui começamos já a ver um grande obstáculo, e nem sequer vem do próprio cidadão, neste caso português. Toda a organização política actual, a sua filosofia e cultura, está orientada para a dependência: promove a dependência do cidadão obrigando-o desde logo a pagar impostos incomportáveis, impede-o de gerir o seu pequeno negócio com exigências irrealistas, sufoca a sobrevivência de pequenas empresas, endivida as gerações futuras, compromete a soberania do próprio país.

Este é actualmente o principal obstáculo à autonomia dos cidadãos, a uma vida livre e digna, à possibilidade de aspirar legitimamente à maior riqueza possível: organizar a sua própria vida.

E como numa fórmula matemática, temos já aqui identificada a principal causa da nossa pobreza actual: o poder político.

Segunda causa, a cultura que assimilámos ao longo de séculos e que agravámos nas últimas décadas: a megalomania, a ganância, o novo-riquismo, o chico-espertismo, a mesquinhez. Cultura agora elevada ao espectáculo espalhafatoso da confusão mais pobrezinha possível entre público e privado (um dia voltarei aqui com Alberoni) na exposição social, na televisão sobretudo, nos jornais e revistas, de toda a nossa mediocridade.

 

Se é um problema de elites? Não gosto muito deste conceito. Acho que é mais uma questão de modelos, de referências, de inteligência, de abertura mental, de uma nova consciência. Pessoas reais, não personagens ou marionetas sem alma. Sim, trata-se essencialmente de pessoas reais, com vida prática, viagens, empatia, afectos. Pessoas reais.

 

Além da autonomia, procurarei aqui analisar outras características da riqueza de um país. Que poderá estar ao nosso alcance, se tivermos a coragem de enfrentar a nossa realidade, a nossa situação actual, e as causas da nossa mediocridade. Não há outra forma de recuperarmos a nossa verdadeira natureza, a nossa identidade, a nossa dignidade.

 

 

Leituras relacionadas: De que políticos precisamos agora? e E de que visão de país precisamos agora?, no Vozes Dissonantes, esse cantinho que me acolheu durante dois anos de dissonâncias.

 

E ainda: Uma civilização em declínio a parodiar-se a si própria.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:36

Do Tempo das Descobertas: Do Céu Caiu Uma Estrela - um filme intemporal

Quarta-feira, 23.12.09

 

Só hoje descobri este post de Jorge Assunção no Delito de Opinião. Como foi possível? Sou uma leitora fiel e deixei escapar parte dos posts na tag cinema! Aqui vai: 

 

 

 

 

 

" DO CÉU CAIU UMA ESTRELA: UM FILME INTEMPORAL

 

 A segunda guerra mundial acabara no ano anterior, Frank Capra, que tinha passado os últimos anos a filmar quase em regime exclusivo filmes sobre a guerra, não encontrava grande apoio da indústria americana para a rodagem dos seus novos projectos e James Stewart, tendo participado na guerra como elemento da força aérea norte-americana, estava há mais de cinco anos sem participar num filme. Capra acabou por criar uma produtora sua para a rodagem do filme e Stewart, inicialmente relutante, acabou por aceitar retomar a sua carreira neste Do céu caiu uma estrela. O filme ainda foi nomeado para os óscares, mas não ganhou nenhum. A produtora de Capra foi à falência e Stewart interrogou-se sobre se o seu talento de actor havia desaparecido com a guerra. Contudo, este foi só mais um filme que não teve o reconhecimento merecido no imediato, mas cujo teste do tempo tratou de elevar à condição de obra-prima do cinema internacional. Enquanto referência, transversal a todas as gerações americanas que se lhe seguiram, transformou-se em presença obrigatória nas transmissões televisivas em período natalício.

O filme é hoje considerado pelo American Film Institute um dos 100 melhores de todos os tempos e na listagem do mesmo instituto para o filme mais inspirador de sempre, surge no destacadíssimo primeiro lugar. Reconheço a minha alergia a listas do género, mas no caso em questão a minha opinião pessoal coincide. Além do mais, este fazia parte do famoso pacote de 25 filmes que Barack Obama decidiu oferecer a Gordon Brown.

 

O filme é intemporal porque lida com temas recorrentes no ser humano: os sonhos, a amizade, o amor, a esperança. Traça uma linha clara entre o bem e o mal que perpassa o coração humano. É também um filme sobre o nosso crescimento pessoal, sobre o percurso e as escolhas que fazemos na vida e como estas influenciam aquilo em que nos tornamos. Mais do que isso, como aquilo que fazemos influencia a vida dos outros para o bem ou para o mal. Há quem diga que é excessivamente moralista, eu acho que sendo certo que Capra reproduz um modelo simplificado da realidade, exagera na caricatura, com isso também reforça a conclusão final. George Bailey (James Stewart) pode não existir na vida real, mas enquanto símbolo representa aquilo a que cada um de nós devia almejar. No banqueiro Henry Potter (Lionel Barrymore, na figura à direita) encontramos o némesis da personagem de Stewart. O banqueiro sem ética, nem moral (vêem como é apropriado aos tempos que correm), cuja única preocupação é servir-se da comunidade em proveito próprio.

 

George Bailey era um homem com sonhos, cujos acontecimentos da vida trataram de desfazer. A dada altura a desilusão é tão grande que ele pensa em "abdicar da maior dádiva de Deus". Mas, por intervenção divina, um "anjo de segunda classe" é enviado em seu auxilio, um anjo que lhe dará a "oportunidade de ver como o mundo seria sem" ele. Bailey depressa descobre que aquela cidade de onde sempre sonhou sair transformara-se num pesadelo. A Bedford Falls que ajudara a criar era agora Pottersville (em honra do banqueiro sem ética, nem moral); os membros da comunidade dos quais Bailey havia conseguido extrair o melhor que tinham para dar, eram amostras medíocres em relação à outra existência, como que com os defeitos maximizados e as virtudes escondidas; pior que tudo, Bailey encontra-se com a sua amada Mary (Donna Reed), aquela que em criança havia prometido amá-lo até ao dia em que morresse, e, não fosse o amor de ambos coisa do destino, esta era uma solteirona bibliotecária, uma sombra daquela a quem Bailey havia prometido entregar a lua caso fosse seu desejo. Afinal, George Bailey finalmente percebe, não era o sonho de criança que realizara, mas nem por isso deixava de viver uma vida de sonho.

Já vi o filme algumas vezes e em todas elas não consigo deixar de me emocionar na cena final. Nesta, Harry Bailey (Todd Karns), o irmão que regressava da segunda guerra mundial como herói, brinda "ao homem mais rico da cidade!". Não é a dinheiro que se refere, mas àquele tipo de riqueza que o dinheiro não pode comprar. Um filme para os tempos que correm, para todo o sempre. "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:53

O Menino

Terça-feira, 22.12.09

 

Vi-me inesperadamente na posição de defesa do estandarte do Menino. O Menino em fundo vermelho. O Menino a olhar para nós.

Podem dizer-me que "é uma forma de comércio", que "não precisamos que nos lembrem". A questão não está sequer aí.

 

O Natal será sempre o do Menino. Sempre. Foi assim que o vi primeiro, num pequeno suporte com palhinhas. Entre a mãe e o pai, e os animais do curral. E foi assim que o vi depois num pequenino estábulo de madeira, que o meu pai fez com ferramentas que tinha na cave. Cá fora, os Reis Magos com os presentes, os pastores, as ovelhas. Houve anos em que se montaram rochedos e caminhos com papel pardo pintado e musgo fresco. A árvore não destoava porque as árvores nunca destoam.

 

As nossas primeiras impressões são as que ficam. Uma estrela no céu a indicar o caminho, alguém que a segue sem hesitar. Não existe história mais simples nem mais complexa. A esperança é sempre a mais difícil de viver. E o Natal simboliza a esperança ainda viva em nós, uma chama que ainda não morreu. A sensibilidade para ver o milagre da vida, por exemplo. Para captar esse milagre e tudo o que significa.

 

Essa é que é verdadeiramente a dádiva do Natal, a alegria que nos envolve estranhamente, subitamente. Mesmo em fases mais tristes e solitárias, essa alegria vem sempre surpreender-nos, sempre. É isso que o Menino nos traz, a alegria de todos os inícios, é isso que nos mostra no presépio ou no estandarte em fundo vermelho.

 

Se o Natal se transformou em mais uma época de consumo? Na sua distracção, as pessoas inventariam outras formas de se alienar do essencial, de fugir de si próprias e da sua verdade. Umas, porque querem adormecer no cansaço das correrias de uma vida que não as satisfaz, outras porque já não sabem viver sem corresponder a expectativas exteriores, outras porque o movimento as leva a esquecer que estão sozinhas no final do dia.

 

E é precisamente aí que as pessoas se desviam do essencial: para perceber o momento mágico do milagre da vida é preciso estar sozinho, quieto por uns segundos, no absoluto silêncio, para ouvir o riso do Menino. É nessa cumplicidade que está o fio da nossa história toda, nesse riso do Menino, no nosso próprio riso.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:56

Do Tempo das Descobertas: Ígor Fiódorovitch Stravinski e Chanel

Segunda-feira, 21.12.09

 

D' O Cachimbo de Magritte, um interessante post de Joana Alarcão sobre um filme de um encontro:  o compositor russo e a estilista francesa.

 

" Ígor Fiódorovitch Stravinski e Chanel

 

 

 


 

A geração que nasceu no início do século XX, habituada a ouvir as óperas melódicas de Mozart, as sonatas subtis de Haydn e o romantismo de Wagner, detestou a decomposição rítmica da Sagração da Primavera de Stravinsky. É esse desconforto que caracteriza a sequência inicial do filme «Coco & Igor», do holandês Jan Kounen. Chris Greenhalgh, autor do livro, escreveu o argumento que dá vida ao encontro do músico/compositor com a estilista Coco Chanel.
 

Stravinski nasceu a 17 de Junho de 1882, em Oranienbaum-Rússia e tornou-se um dos mais importantes compositores do século XX. Parte da sua vida viveu-a em Nova York. Com uma obra de ruptura e uma personalidade carismática, o compositor marcou a música clássica do século.
 

O filme de Jan Kounen revela a estadia em Paris, após abandonar o seu país, imerso na revolução de 1917. A convite da estilista Chanel, instala-se na sua casa de campo. A mulher e os filhos acompanham-no, criando um ambiente de crescente tensão dramática, à medida que a relação de Chanel de Stravinski se intensifica. Na pequena floresta que rodeia a casa Stravinski despeja a sua ansiedade, os seus sentimentos conflituantes.
 

As personagens femininas no filme funcionam como opostos: uma ruiva, outra morena, uma que entende de música, outra que aprecia a estética, uma doente, outra cheia de saúde. A produção europeia é exemplar, desde o guarda - roupa, ao respeito pelo uso do inglês, francês e russo nos diálogos entre personagens de diferentes nacionalidades.
 

Apesar de ser um filme de encontro, a história evidencia a diferença. O texto dramático ,por ter sido reduzido na montagem, torna um filme cheio de música, com as notas do compositor a ressoar por toda a casa, numa história onde o silêncio é mais forte. Dispensavam-se as recordações finais, invocando as personagens envelhecidas, algo desenquadradas para um encontro tão pouco documentado.
 "
 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:09

"A Canção de Natal" de Charles Dickens é muito actual

Quinta-feira, 10.12.09

 

Pensava eu que as gerações melhoravam naturalmente da anterior para a seguinte, que partiam de valores dos avós e dos pais e elevavam ainda mais a consciência.

Descubro agora, com total perplexidade, que não é assim. Uma geração inteligente e empreendedora pode produzir uma geração mesquinha e medíocre. Mesquinhez e mediocridade que estão geralmente relacionadas com a ganância e a falta de escrúpulos.

 

Também a inteligência pode decrescer de geração para geração, foi também isso que descobri recentemente e com total perplexidade.

Às vezes pergunto-me se essas gerações que nos precederam se orgulhariam dos seus descendentes e, se os pudessem ver, o que lhes diriam. É um exercício muito esclarecedor.  Mas talvez a vida seja generosa nessa impossibilidade muito prática: poupar essas gerações à visão aterradora da sua descendência.

 

Estas recentes descobertas levaram-me até Charles Dickens e A Canção de Natal. Charles Dickens é um autor que volta a estar tristemente actual. Scrooge apenas tem olhos de avaliador e de oportunista, perdeu a alma em qualquer sítio e a alegria também.

Na cabeça deve ter apenas duas colunas de números, em que o haver deve suplantar em muito, muitíssimo, o dever, em que não há lugar para a bondade genuína, os afectos genuínos.

 

N' A Canção de Natal Scrooge tem uma última oportunidade, anunciada pelo fantasma do seu sócio: três Espíritos irão suceder-se noite após noite até à noite de Natal.

O primeiro é o Espírito do Natal do Passado. Anos em que Scrooge escolheu ser a pessoa que é agora, perdendo com essa escolha o amor da sua vida.

O segundo é o Espírito do Natal Presente. Scrooge percebe que o amor, a alegria e a gratidão enchem a casa pobre do seu empregado, que ele tão maltrata, comovendo-se com a bengala na cadeira do pequeno Tiny Tim.

O terceiro é o Espírito do Natal Futuro. Scrooge vê o seu próprio velório e o saque a que a casa fica exposta. Mas o pior é o pequeno aleijado, o Tiny Tim, que não resistirá a esse Natal.

 

Scrooge tem esta última oportunidade, de acordar e de se libertar das suas próprias limitações. Muda da noite para o dia, literalmente.

Será um novo Scrooge a festejar o Natal.

 

Na verdade, uma consciência fechada sobre si própria e o seu pequeno mundo, dificilmente dará assim um salto que, para si, seria quântico: abrir-se e libertar-se das suas próprias limitações. A palavra destino aplica-se aqui, no sentido de natureza a que não pode escapar. Talvez seja assim, o destino de cada um revela-se na forma como vive, nas suas motivações essenciais, como trata os que o rodeiam: o que fica da sua passagem breve por este mundo.

 

É por isso que gosto tanto deste conto de Charles Dickens! E é também por isso que o melhor filme de Natal é, ainda para mim, Do Céu Caiu uma Estrela (It's a Wonderful Life). Se repararem bem, são muito parecidos.

A única diferença é que n' A Canção de Natal Scrooge eleva a consciência e no Do Céu Caiu uma Estrela o homem percebe que a sua dedicação e generosidade valeram a pena.

E isso é verdadeiramente gratificante: o homem que se dedicara à comunidade, comprometendo, pelo bem comum, os seus sonhos pessoais, e deixando para trás o seu direito de melhorar a sua vida e da própria família, descobre que tudo isso valeu a pena.

Só mesmo Frank Capra, o idealista, para nos mostrar que as nossas escolhas são fundamentais, podem perder-nos (porque perder o contacto com a alma é o pior que nos pode acontecer) ou podem salvar-nos.

 

 

Leitura relacionada: Do inspirado blogue Saudades do Futuro, este texto, Portugal Estéril.

  

E ainda: Desta vez do blogue Golpe de Estado, este texto de análise filosófica, política e social, Democracia-cristã, Socialismo e Objectivismo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:24

Do Tempo das Descobertas: A Última Viagem

Sábado, 05.12.09

  

De novo Avelino Abilheira, a sua voz poética,  n' A Última Viagem, um conto que lembra um filme, que é, de certo modo, um filme, quase documentário: 

 

 

" A Última Viagem

  

Levava muito tempo a fugir, pelos arrabaldes da cidade, entre os cascalhos das casas derrocadas, alimentado às vezes nas provisórias cozinhas de outros humildes resistentes onde havia sempre uma fotografia amarela dum ausente. Levava muito tempo sem ver rostos amigos, sem reunir-me em abraços de palavras para imaginarmos um novo mundo que nunca chegaria, levava tempo assediado por fuzis como uma presa de caça, a dormir num rés-do-chão abandonado ou num desvão sem vidros, de olhada sempre alerte, portando apenas o meu saco cruzado em bandoleira com umas poucas coisas.

Semanas atrás salvara-me no último instante ao saltar pela janela posterior que dava para um pátio em ruínas justo quando soldados com emblemas de terror golpeavam na porta. Só tivera tempo de apanhar o dinheiro restante e umas pertenças na minha bolsa. Levava muito tempo num mundo impalpável entre a vida e a morte, ideando como sobreviver sem comprometer ninguém. Eu sabia que se me apanhavam me matariam, e não era consolo pensar que não era o único. Matar-me-iam por pensar, não por ter matado jamais. Eu não levava armas, apenas a consciência. Não levava ódio, apenas a tristeza. Eu sabia que não era um mártir: Naquela guerra e naquela horrível pós-guerra que duraria sempre não éramos heróis nem covardes, apenas resistentes. Nenhum dia deixei de conceber a utopia, a igualdade de todas as mentes, a beleza de todos os corpos. Sim, poderia ter matado se fosse inevitável. Mas, sobretudo, poderia ter amado muito mais se os tiranos dum país desfeito não perseguissem sempre as pessoas que pensam diferente, que amam diferente, que falam diferente, que escrevem diferente. Eu não queria morrer, mas tampouco viver dessa maneira.

À noite anterior por fim me decidira. Ocultara-me para descansar escassamente nas latrinas duma escola fechada que conhecia bem na parte alta da cidade. Dormira no lixo aonde os inimigos eternos querem enviar todas as letras: pelos corredores ainda havia restos de volumes queimados. Na manhãzinha saíra do esconderijo com prudência, decidido a abandonar a cidade para sempre. Poderia morrer a procurá-lo. Poderiam detectar-me à luz do outono. Mas era dia de maior movimento de gentes nos portos, nos mercados, na estação, e talvez houvesse fortuna.

Durante horas desci num dilatado zigue-zague entre ruelas populares, sem olhar para o chão como suspeito nem fitar no rosto dos vigias, dos constantes confidentes que recebem em troca da denúncia um pedaço de pão e umas moedas. Não devia pisar os mesmos lugares duas vezes para não ser reconhecido. Não devia caminhar por ruas vazias nem afastar-me das zonas populosas. Não devia falar com ninguém. Assim pude aproximar-me pouco a pouco do destino: a estação do caminho-de-ferro.

Sabia que pouco depois do sol-pôr um longo trem partia para longe, para cruzar toda a noite o meu país e outros países ocupados. Era a minha última esperança. Seria a minha última olhada à cidade que me acolhera, a que continha tantos cadáveres amigos, onde deixara o meu quarto diminuto, livros e símbolos ocultos debaixo das tábuas, um ferrugento leito de amor à luz da tarde enquanto dois corpos despidos imaginavam o infinito, onde deixara uns pobres alimentos, a companhia dum gato ocasional que visitava, uma lâmpada de óleo, uns retratos da infância familiar, algumas prendas com antigo recendo a salitre, a tinta, a lareira.

Consegui entrar na estação na hora mais ocupada da tarde em que regressa e chega muita gente. A zona estava contagiada de uniformes homicidas que procuravam presas em babujante matilha, intimidando e detendo gente para saciarem os trasbordantes matadouros. Dissimulei-me e pude obter uma passagem para o ponto mais distante do trajeto. Depois, durante horas, pervaguei ainda pelas ruas para voltar à estação pouco antes da partida. Levava todo o dia sedento, esfomeado, mas era jovem, forte, e animava o meu corpo um perseverante latejo quase doloroso, uma esfera de sangue inapelável porque continha uma herança de séculos humanos de utopia.

Chegou o entardecer. A poucos minutos da partida, num momento de menor perigo, pude deslizar-me e entrar no trem com figurada calma. Percorri pelo corredor algumas carruagens e escolhi um compartimento quase vazio perto da cabeça. Uma camponesa de longa saia cor de terra, socos, pano negro e um cesto de alimentos ocupava o assento da janela que olhava para a entrada da estação. Saudámo-nos. Compreendi que há gente que viaja de costas ao futuro, olhando com saudades como o passado se esvaece. Outra viaja defrontando o porvir, de costas ao vivido. Eu sentei-me em frente da mulher, a olhar para o infinito por achar, sem dar o rosto ao cais.

O angusto compartimento foi enchendo-se plenamente: uma moça delgada, um jovem macilento, uma parelha anciã com sotaque estrangeiro, duas mulheres semelhantes de cabelos recolhidos... Pelo corredor continuavam a transcorrer figuras que buscavam lugar dentro, prosseguiam, ficavam de pé junto às janelinhas do outro lado: um casal com três crianças, uma adolescente, um marinheiro eivado com muletas... Acumulavam-se as bolsas nas estantes superiores do nosso reduzido espaço, tocavam-se os limites dos corpos que se iam acomodando. Cheirava a madeira idosa, a carvão, a vapor, a terra, a pó, a maçã, a calor, a pele triste. Comprimiam-se os perfis, estendiam-se as sombras, esvaiam-se as formas como se fôssemos um único animal antigo. Oito corações vibravam contra o ritmo da máquina de ferro que aquecia com urgência.

 

De súbito intui virar a cabeça para espreitar os movimentos dos carrascos na gare. Vi mover-se rapidamente um oficial que guiava quatro soldados rumo ao comboio. Buscavam faces nas carruagens finais, com bruscos acenos quebrados, como autómatos. Em ocasiões paravam, elevavam as cabeças, continuavam. Já estavam perto da nossa carruagem.

Soou um zunido de vapor. Eu olhei para longe, para o porvir que estava decidido a alcançar, oferecendo apenas um tranquilo perfil aos militares. O trem inteiro rangeu, senti o golpe da primeira pernada, o mundo moveu-se para atrás, iniciou-se a familiar língua metálica das viagens, o trem trespassou a estação, abriu-se a última luz obscura do dia sobre casas de arrabalde e hortas intestinas, e por fim surgiu o monte, o ar, o campo aberto da fugida.

No compartimento olhámo-nos um a um, sem falarmos. O nosso corpo múltiplo amoleceu e respirou. Compreendi que, duma maneira ou outra, todos fugíamos de algo rumo a algum território de sossego. Levantei-me e baixei parcialmente a janela para deixar entrar o ar húmido da terra própria. Inauguraram-se então breves diálogos cruzados, sem alvo, para mostrarmos que estávamos aí, reunidos no imediato e no possível.

Já era noite e decorriam campos e florestas. O comboio detinha-se brevemente nos apeadeiros de pequenos lugares como células centrais dum enorme ser que a história foi matando. Entrava e saía alguma gente, e a viagem continuava. A mulher campesina subiu a cesta dos seus pés, abriu-a e ofereceu a partilha de alimentos. Outras pessoas pegaram em bolsas e sacos e houve uma balbúrdia de oferendas e agradecimentos. Eu não tinha nada que doar, apenas tabaco, e recebi de todos. E compreendi mais uma vez essa singela lógica da igualdade contra a qual os genocidas lançaram tantas guerras: Se tens, dá; se não tens, recebe. Guardei na bolsa um pequeno pedaço de pão de boroa para o caminho.

Concluiu o escasso jantar e voltaram as cortadas conversas, os cigarros, o descanso provisório nesse berço de ferro compassado que nos levava longe. Entrava para nós ar puro vegetal. Acompanhava-nos uma perfeita lua cheia, a mesma lua vedranha das marés, dos desvãos de amor, dos estanques. Íamos para um sol nascente, o mesmo sol do verão central nos campos, dos desvãos de amor, dos entardeceres sobre um rio. E chegaríamos.

Inesperadamente, numa curva cauta entre montes, o trem começou a diminuir com um forçado rangido. Fomos projetados uns contra outros. Olhámo-nos em surpresa. A jovem e eu impelimo-nos à janela para saber o que acontecia. Na cabeça do comboio viam-se sombras pretas de homens a aproximar-se e carros militares a bloquearem a via. "Soldados!", escutou-se com temor desde uma carruagem vizinha. Pela cauda do trem chegavam mais homens com armas: estávamos comprimidos na trapaça dum controle no meio do nada.

Então todos os passageiros, desde todas as carruagens, como uma população de cidade nómada, começaram a recolher com vigor as suas coisas e a fugir pelas abas monte acima, a disseminar-se pelo lado contrário monte abaixo, rumo a amplos vales nutridos por rios que acabam num mar que não acaba. Entre as árvores adivinhavam-se pontos de luz de fachos, moradas provisórias, como reclamos a proscritos. O trem foi-se esvaziando de almas enquanto os soldados corriam atirando sem fortuna contra as trevas.

A jovem delgada do compartimento era a última a sair. Desde a porta, olhando nervosa para os lados, estendeu-me uma mão e convidou-me:

—Vem! Vamos! Não há tempo!

—Não, amiga...— disse, sereno. —Ainda não cheguei ao meu destino.

—Mas vão-te matar!

—Não— expliquei. —Direi que não pertenço ao seu horror.

—Podemos começar de novo!— insistiu. —Somos poucos, e não será o mesmo. E levará anos, sim. Mas morrer não vale a pena!

Não respondi. Despedi-me dela com um sorriso e esse lento fechamento dos olhos e compasso da cabeça com que se despedem velhas amizades, e vi como ela partia, escutei como saltava da carruagem para os vales. Eu fiquei absolutamente só nessa cidade fugidia abandonada.

Voltei a sentar-me no meu lugar, de face ao porvir, com a bolsa ao meu lado. Apoiei a cabeça na janela, em calma, e fechei os olhos.

Sobressaltou-me um repetido golpe seco no vidro. Distingui numa paisagem imóvel um oficial e quatro soldados que olhavam para o interior. Virei-me para dar as costas ao exterior e aguardar a entrada deles fitando-os na cara. "Não me levarão", pensei. "Se me vêem, não serei eu quem seja visto. Se me falam, direi que não os compreendo, pois eu não vivo no seu mundo de terror". Eu não tinha armas, apenas a força da razão. Eu não carregava ódio, apenas a tristeza. Não éramos mártires. Não éramos heróis, não éramos covardes: apenas resistentes.

Nuns instantes apareceu na porta do compartimento um homem de uniforme:

—Senhor, que faz aqui?

Olhei para ele em hierático silêncio, como se pertencesse a um plano errado da verdade.

—Tem que baixar, senhor. O trem não sai.

—Não sei o que me diz— mantive a firmeza.

—Este trem dorme aqui. Leva horas parado. Temos que limpá-lo.

Fez-se uma luz brilhantíssima, metálica, pungente. Por detrás do revisor observavam-me com preocupação três mulheres e um jovem de roupas azuis, com panos amarelos e frascos de líquidos na mão. Eu sentia dores no ombro e uma enorme fraqueza nas pernas.

Tentei incorporar-me. O revisor ajudou-me do braço:

—Está mal? Chamamos um médico?

—Não...—. Apanhei a pesada bolsa. O homem ajudou-me a colocá-la no ombro e guiou-me até às escadas enquanto me observavam.

—Com cuidado...

Pisei o cais, titubeando. Um casal com muitas alfaias olhou-me com receio. Um grande relógio alto marcava as 10:35. Ecoavam na gare vozes de alto-falantes em duas línguas alternas. Jovens de prendas longas corriam para as vias com malas pequenas sobre rodas. Longos sinais luminosos anunciavam com confusas letras móveis horas e nomes de cidades.

Tirei da bolsa o meu sossegante maço de tabaco e dispus-me a prender um cigarro. Aproximou-se um guarda com um brilhante colete amarelo:

—Não se pode fumar, não vê?— apontou para um cartaz.

Quando guardava o tabaco, entrevi dentro da bolsa uma luzinha azul que piscava com raras vibrações. Apanhei o aparelho, premi sem reparar nalgum lugar e levei-o ao ouvido:

—Onde andas, homem?— era uma carinhosa voz de mulher. —Estive chamando toda a tarde.

—Não sei...

—Onde estás? Ainda no trabalho?

Olhei em redor.

—Na estação... Num trem...

—Ai, parvinho!— reconheceu ela. —Outra vez? Anda, vem para casa.

—...

—Ainda há sopa rica da tua.

Comecei a regressar, a reviver o conforto da tibieza quotidiana, a côncava nação do amor habitual.

—Já vou...

—Vou-te buscar, meu rei?

—Não, já vou...

Levava anos a fugir, em solitário, pelos arrabaldes da amizade, nas ruínas de mim próprio, sem achar rostos nem palavras. Levava anos habitando em mim mesmo, como um território autocontido, na falsa pátria íntima onde ninguém te acossa, nem te arresta, nem te increpa, nem te exige, nem te fala...

Dirigi-me à saída. Por detrás do vidro da cafetaria um homem sem barbear introduzia moedas sem descanso e premia botões numa sonora máquina de luzes. Um moço de café levava bandejas de bebidas obscuras e pratos de azeitonas a três adolescentes que riam. No alto da parede, um ecrã alongado com insistentes linhas de palavras mostrava saturadas faces planas a gritarem. No exterior recortava-se uma cobra de táxis brancos contra o perfil apagado da cidade. Caía uma poalha de água mansa.

Cheguei à cabeça da fileira de automóveis. Dois condutores de pé falavam interrompendo-se sobre números e façanhas dalgum grupo desportivo. Abri a porta posterior. Doíam-me intensamente as pernas e o ombro pela bolsa.

—Metemos isto detrás?— perguntou o taxista para ajudar-me.

—Não!— exclamei, agarrando a bolsa contra o corpo. Fechou-me a porta, sério. Olhei para a estação, despedindo-me. Começou a chover. Fazia muito frio.

Dei um endereço, e pouco a pouco moveu-se a matéria da cidade: os peões urgentes, os carros como cansos mamíferos molhados, a linguagem intermitente das luzes, essa múltipla solidão que habita nos prédios altos, os negros afluentes do asfalto, a ordem dos jardins inativos, os traços da chuva nas janelas, o bater clínico do limpa-pára-brisas, a ausência mútua de dois seres anónimos no interior duma demorada borbulha de metal que se dirige a um último destino.

A bolsa pesava-me imensamente sobre as pernas. Coloquei-a com cuidado no assento, com a mão pousada nela como num amado animal doméstico. Eu levava comigo um pedaço de pão, tabaco, vários livros de trabalho, um caderno de notas, dois livrinhos gémeos de poesia, uns postais velhos, algumas fotografias, uma cruz de Santiago, uma caixa vazia, um frasquinho cor âmbar, um anel de prata, uma doa laranja, uma pedrinha azul, três flores secas... Fechei os olhos e vi um desvão dourado, um dólmen, uma casa com flores, uma cálida cova, um quarto de madeira sob a lua. Dentro de mim soava uma cantiga numa ermida, o diálogo dos barcos no peirao, a sinfonia dos animais da noite, soava um bando imenso de estorninhos. Respirei, respirei fundamente, e vi cem rostos de amigas e de amigos, e recendeu a mar, a acácia, a ilha virgem, a papaia, a campo aberto, a abraço de amor, a carta antiga... 
"
 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:48








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